Sete dicas de maestro para coralistas aproveitarem ao máximo um ensaio

(A Presto convidou novamente a laureada maestrina, compositora e cantora Beatriz De Luca para compartilhar de sua experiência. Aproveitemos.)

154 Coro OSESP

Beatriz cantando no coro da OSESP (divulgação)

Cantamos e assobiamos quando estamos felizes. Por algo é. Neste texto compartilharei da minha experiência como regente e cantora de corais. Coralista, o foco é você.

Minha participação em corais se iniciou na infância, aos sete anos de idade, quando ingressei no coral infantil do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, sob regência de Marisa Fonterrada, grande especialista em musicalização infantil, autora de importante bibliografia, e que veio posteriormente a ser minha professora na graduação em Regência no próprio IA-UNESP, e com quem trabalhei como monitora no mesmo coro infantil. Cantei em inúmeros coros, amadores e profissionais. Como regente, formei e dirigi diversos coros comunitários, universitários, adultos, juvenis e infantis. Dirigi também vários coros profissionais, eruditos e de teatro musical. Posso dizer que sempre estive ligada ao mundo da música vocal, como cantora e como regente. Conheço detalhes dois lados do processo que gostaria de compartilhar nesse breve levantamento de sugestões para coralistas sobre como aproveitar ao máximo um ensaio, para que seu desempenho nos ensaios seja mais eficiente.

São sete dicas, referentes principalmente às ações e atitudes que os cantores de coro devem tomar individualmente, fora da sala de ensaio. Você verá que será necessário investir pouco tempo para obter um grande avanço!

Estude a partitura

O estudo individual da partitura por parte do cantor não pode se limitar às alturas e durações das notas, nem tampouco às (freqüentemente esquecidas) dinâmicas e articulações. Para um bom aproveitamento do ensaio, o cantor deve conhecer muito bem a peça a ser cantada. Recomendo ouvir gravações da música e pesquisar sobre a vida dos compositores e o período histórico em que a peça foi escrita. A cultura e as origens dos autores influenciam decisivamente sobre o estilo composicional e consequentemente, sobre a interpretação de qualquer obra musical. Estas informações serão levadas em consideração pelo maestro, e cabe ao cantor se antecipar e se preparar vocalmente para o estilo a ser cantado. Entre os aspectos que o cantor deve atentar destaco:

  • o tipo de colocação vocal, se mais aberta ou coberta;
  • o vibrato, se longo ou curto, ou ainda se inexistente;
  • o tipo de ornamentação, incluindo a necessidade de execução de melismas.

Quanto tempo levo para estudar a partitura? Duas horas.

Aproximadamente duas horas de pesquisa para cada música a ser cantada são suficientes para se descobrir todas as informações necessárias, além de outras duas horas para estudar efetivamente o texto musical, ou seja, as alturas, durações, dinâmicas e articulação. Faça anotações, pois é muito comum a retomada de um determinado repertório depois de um tempo sem cantá-lo.

Estude o texto

Este item é importantíssimo pois o cantor deve conhecer o conteúdo do texto a ser cantado. Se a música não estiver em português, providencie uma tradução da letra. O texto é o maior responsável pela dramaticidade da peça e sua compreensibilidade é fundamental para a obtenção da comunicação com o público. Desta forma, o estudo do texto inclui ainda a sua dicção. Para a perfeita pronúncia em outra língua, pode ser de boa ajuda conhecer o Alfabeto Fonético Internacional (cujo acrônimo em inglês é IPA), que é a representação da pronúncia de uma palavra estrangeira por meio de símbolos. Eu costumo anotar na partitura a sua tradução, e a pronúncia em IPA sob a letra da música em cada pentagrama.

Quanto tempo levo para estudar o texto? Quatro horas.

Aproximadamente duas horas de pesquisa de pesquisa para a tradução do texto e sua pronúncia, e outras duas horas para o efetivo estudo da pronúncia das palavras. Este último deve ser feito em três etapas: primeiramente falando o texto livremente, como que recitando uma poesia, buscando uma boa entonação e inflexão da voz; em segundo lugar, acrescentando ao texto falado, o ritmo definido pela partitura, mas ainda sem as alturas; por fim, o texto deverá ser cantado.

Provavelmente o maestro definirá os momentos em que o coro respira mas, se você estiver estudando uma peça solo, aproveite esta etapa do estudo de pronuncia e articulação, para definir os melhores pontos para as respirações e anote-os na partitura.

Amplie seu repertório musical

Ouça música vocal de diversos estilos, para coro, grupo vocal, cantor solista, teatro musical e ópera, tanto do repertório popular quanto do erudito. Mas não se limite à música coral. Navegue também pelo universo da música instrumental, do jazz e das performances em geral. Não importa o estilo, o que interessa é a qualidade artística. E quanto maior seu repertório, melhor seu senso crítico musical.

Hoje em dia, há infinitas alternativas para que o músico profissional ou amador amplie seu repertório, incluindo plataformas digitais como The Berliner Philharmoniker’s Digital Concert Hall, Metropolitan Opera (que transmite também em cinemas, oxalá em um perto de você), Idagio, You Tube, Spotify, Apple Music etc, com concertos inteiros em alta resolução e transmissão ao vivo de espetáculos. Aproveite também a programação musical de sua cidade e não perca a chance de interagir com outros cantores e instrumentistas.

Quanto tempo levo para ampliar meu repertório musical? De uma música a uma vida.

Acredito que o verdadeiro músico, aquele em que nas veias corre a música, independentemente de ser amador ou profissional, seja aquele para o qual esta recomendação não seja uma novidade, pois ele vive imerso em música, vinte e quatro horas por dia. Para ele, ampliar o repertório não é uma recomendação, é uma atividade que acontece natural e diariamente. No entanto, recomendo que você ouça pelo menos uma música desconhecida por dia para ampliar seu repertório.

Cuide de sua saúde vocal

A dica mais recorrente que ouvi na minha carreira como cantora e regente, foi para não fumar, evitar bebidas alcoólicas e cuidar para não ficar doente. Parecem dicas óbvias, não é mesmo?

O fumo certamente faz mal à saúde e, para o cantor, o prejuízo é ainda maior. Fumar limita a sua capacidade pulmonar com consequências drásticas em seu fraseado de trechos longos, além de ressecar sua laringe e, consequentemente, reduzir a flexibilidade do canto. Eu tive a grata alegria de testemunhar, diversas vezes, meus coralistas deixarem de fumar, estimulados pelo canto.

O consumo de álcool, especialmente antes de ensaios e apresentações, reduz a atenção e causa uma sensação de dormência na mucosa da boca e laringe, fazendo com que esforços excessivos possam passar desapercebidos e causar danos às pregas vocais. Há cantores que cometem o despaupério de beber álcool quando estão com dor de garganta, justamente para amenizar a dor, o que pode ser extremamente perigoso.

Com relação ao cuidado para evitar ficar resfriado, os cantores tendem a levar esta recomendação ao extremo e se negam a entrar em ambientes com ar condicionado, se privam de tomar sorvete ou bebidas geladas, além de usar cachecol até no verão.

O equilíbrio é a chave para a boa saúde vocal.

Hidrate-se e alimente-se bem. Mas até este conselho requer cuidado para evitar exageros: acho muito deselegante a cena de um coro inteiro bebendo água no gargalo de garrafa PET durante os concertos. Cheguei a ver coralista comendo maçã durante o concerto. De fato, a maçã é adstringente e desempenha a função de limpar o trato vocal, mas não durante o concerto, por obséquio!

Consulte seu otorrinolaringologista e faça pelo menos uma laringoscopia e uma audiometria por ano. Previnir é melhor do que remediar!

Quanto tempo levo para cuidar da minha saúde vocal? Do vocalise ao dia todo, todo dia.

Faz parte também do cuidado com a saúde vocal a realização de vocalises antes dos ensaios e concertos, além de exercícios de desaquecimento depois de cantar, esses últimos esquecidos pela imensa maioria dos cantores. Um bom aquecimento não demora mais do que quinze minutos, e o desaquecimento, cinco. Para aumentar seu rendimento, procure estar descansado para os ensaios e, principalmente, para as apresentações.

Cuide de sua formação musical

Quanto tempo levo por dia para estudar solfejo? Qualquer minuto conta; uma cota mínima boa são dez minutos por dia.

Estude percepção musical e solfejo. Muitos cantores acreditam que apenas sua boa voz é suficiente para que seja um bom coralista. É claro que uma bela voz, bem colocada, afinada e harmoniosa é um quesito essencial para o conjunto. No entanto, a agilidade na assimilação de novos repertórios depende da capacidade média de leitura musical dos integrantes do coro. Leia uma página de música diariamente, pode ser qualquer partitura, mas o treinamento diário é fundamental e não levará mais do que dez minutos.

Quanto tempo levo para aprender essas disciplinas teóricas e práticas? De uma leitura a uma vida, e cada minuto conta a favor.

Estude também teoria musical, harmonia e contraponto. (Por falar em teoria musical… A Presto fez a editoração deste livro da Berklee.) Este conhecimento melhora muito a afinação do coro pois, quando seus integrantes entendem a sua participação nos acordes, ou seja, se estão cantando uma terça, se sua nota apresenta uma dissonância em relação ao outro naipe, se seguram um pedal de dominante, fica extremamente mais simples manter a afinação. Há coros que oferecem aulas teóricas, uma aula semanal de uma hora de duração traria um enorme benefício ao coro. Você pode também procurar instituições que ofereçam aulas teóricas em sua cidade.

Se possível, faça aulas de canto semanais e individuais. O aquecimento em grupo que o maestro ou preparador vocal ministra antes dos ensaios tem objetivo diverso daquele do professor de canto, que é o de lhe ensinar técnica vocal. O preparador vocal do coro tem como objetivo timbrar as vozes e prepará-las para o repertório específico a ser ensaiado. Assim, um aquecimento vocal para cantar peças barrocas, repletas de melismas, deveria ser diferente daquele para um coro de ópera romântico. O momento do aquecimento vocal deve, portanto, ser aproveitado para que o cantor timbre com seus colegas de naipe, ou seja, busque o mesmo colorido vocal que inclui: emissão, vibrato e articulação de vogais e consoantes. Já as aulas de canto visam o desenvolvimento técnico individual e são imprescindíveis se você pretende ser um coralista profissional.

A soma de detalhes no ensaio tem grande importância

Lembre-se dos pequenos cuidados durante o ensaio:

  1. Leve lápis e borracha e anote as recomendações do maestro na partitura. Esta providência reduz o desconforto de se re-ensaiar os mesmos trechos em virtude dos cantores terem esquecido as orientações do maestro no ensaio anterior;
  2. Preste atenção no ensaio dos outros naipes para entender o conjunto da obra. É fundamental que você tenha uma ótima compreensão do que acontece nos outros naipes e como sua linha vocal “conversa” com as demais. Além disso, muitas vezes as linhas vocais dos outros naipes são uma ótima referencia para a sua própria melodia;
  3. Tenha um diapasão; pode ser muito útil durante o ensaio, especialmente para músicas cantadas a capella;
  4. Preste muita atenção em relação à sua postura, especialmente enquanto sentado. Manter uma postura ereta evita a compressão dos músculos abdominais que pode reduzir sua capacidade respiratória. Aproveite os momentos em que o maestro pedir para cantar em pé para alongar o corpo;
  5. Procure utilizar sempre partituras originais. Hoje em dia, é possível adquirir quase todas as partituras pela internet. Acho justa a remuneração do compositor, além de que, as cópias de livros, partituras e quaisquer outros materiais protegidos por direitos autorais são proibidas.

Cante para ser feliz, seja feliz e cante

Relaxe. Os problemas do dia a dia se refletem na voz. Sempre que passamos por momentos tristes, estressantes, tensos ou problemáticos, temos a tendência de contrair a musculatura de todo o corpo, especialmente dos ombros, mandíbula e pescoço. O efeito disso é uma tensão sobre as pregas vocais e músculos da respiração. O canto é diretamente prejudicado por esta tensão muscular. Aproveite conscientemente o momento do aquecimento vocal e os exercícios de respiração para relaxar, meditar e libertar-se, ainda que momentaneamente, dos problemas.

Lembre-se de que um coro é a união de pessoas com o objetivo de fazer música. Cada voz é fundamental para a realização do conjunto musical. Um coro é um grupo que tem pelo menos um grande interesse em comum: a paixão pela música. Os integrantes dos coros em que trabalhei tornaram-se tão amigos que o coro passou a ser uma grande família, e todos ganhamos amigos para toda a vida. Um ensaio de coro pode ser equivalente, ou ainda melhor, do que uma sessão de terapia para lidar com os problemas do cotidiano. Ajuda bastante a boa escolha de repertório.


Contrate a Presto para fazer a sua partitura, transcrição, música ou livro.

2 comentários sobre “Sete dicas de maestro para coralistas aproveitarem ao máximo um ensaio

  1. O texto é bom, só discordo veementemente que um ensaio de coral pode substituir uma seSSão (com 2 ss, se me permite a correção) de terapia. São coisas diferentes com profissionais diferentes. Cantar faz bem é é “terapêutico” no sentido genérico do termo. Jamais substituiria uma terapia pois quem conduz um ensaio não é terapeuta nem está lá com esse objetivo. A música pode nos oferecer diversos caminhos para a transcendência, mas acho o comentário sobre a terapia perigoso e inclusive um pouco desrespeitoso (mesmo não tendo sido essa a intenção, com certeza) com os profissionais que atuam nessa área e já são muitas vezes desconsiderados por outros profissionais da área de saúde. Não façamos o mesmo, nós da música. Sandra Mendes Sampaio – Regente Coral

    • Correção feita. Lapso de revisão. Agradecemos pelo apontamento e pela leitura!

      Sobre um ensaio ‘poder ser’ equivalente ou superior a uma sessão de terapia, não julgamos desrespeitoso. Abundam relatos de pessoas com diferentes graus clínicos de depressão terem melhorado através de atividades extra consultórios médicos ou terapêuticos, inclusive sem ter entrado em um: esportes, atividades em grupo, alimentação, uma nova amizade, um relacionamento inesperado… E, claro, também com música. O que o texto advoga é essa ‘possibilidade’, é por isso que fala antes de tudo que um ensaio de coral ‘pode’ (uma possibilidade) equivaler, senão superar (outra possibilidade), uma sessão de terapia. Regentes podem duvidar de possibilidades terapêuticas da atividade coral; e, do mesmo modo, outros regentes, marciais, por exemplo, podem duvidar da possibilidade de transcendência da música e só ver finalidades práticas imediatas, como o sincronizar de passos. Experiências diferentes podem levar situações iguais a respostas diferentes. Agradecemos por seu interesse e participação!

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