Os planos-seqüência de Hitchcock geram os da Mr. Porter

A técnica de plano-seqüência usada por Alfred Hitchcock no filme Rope, lançado em 1948, foi jocosamente replicada hoje, em 2016, em um vídeo no qual a loja on-line Mr. Porter apresenta combinações de roupas masculinas da Prada.
(Breve contextualização: plano-seqüência é a filmagem, sem cortes, de uma ação inteira. Para se caracterizar como PS, essa ação geralmente seria filmada com cortes.)

Compare os cortes escondidos (‘hidden cuts’) do vídeo da Mr. Porter com os de Rope. Não por acaso, alguns dos cortes da Mr. Porter são focando no terno, igual ao que acontece em Rope. É o preenchimento de um percurso de algo que surge excepcional e transmuta-se para normal: começa Alta Cultura, vira um senso-comum.

 

É razoável acreditar que Hitchcock pretendeu fazer Rope (“Festim Diabólico” no Brasil, “Corda” em Portugal), seu primeiro filme em cores, com uma única tomada de filmagem, sem cortes, porém isso então não era possível ante os limites de duração das fitas. Ele emendou tal limitação se fixando em determinadas imagens e depois saindo delas de modo a não se perceber interrupções das cenas. (Seria algo como a respiração circular característica de excitantes de instrumentos de sopro como o australiano didgeridoo.) No total, são umas dez tomadas longas (‘long takes’). Ou seja, Rope foi imaginado como um plano-seqüência e como tal é visualmente percebido, mas não foi de fato filmado como – nem poderia tê-lo sido.

Atualmente, com filmagens digitais, não há mais esse tipo de limitação. O que o vídeo da Mr. Porter logrou foi facultativamente adotar como estilo a técnica caraterística de Rope. É alta cultura se transmutando em pop.

Esta técnica de filmagem favorece uma abordagem teatral de cenografia e tempo, como demonstra o próprio filme Rope, este uma adaptação cinematográfica da peça de teatro homônima (1928) de autoria de Patrick Hamilton. (Abordagem teatral em cinema não depende de plano-seqüência, como demostra o polêmicostage-like set’ Dogville, do dinamarquês Lars von Trier, lançado em 2003, que é flagrantemente teatral sem ser ou ter só ou priotirariamente planos-seqüência. Também o vídeo da Mr. Porter não é teatral.) 

Outros diretores fizeram filmes com pequenas quantias de longas tomadas, dos quais destaco Theo Angelopoulos, Jim Jarmusch e Andrei Tarkovsky, mestre de Alexandr Sokurov – este o autor do que considero a mais bela realização com plano-seqüência: Russkiy Kovcheg.

Planos-seqüência de fato

Em plano-seqüência real é o maravilhoso e pouco conhecido Russkiy Kovcheg (“Arca russa”), filme do russo Alexandr Sokurov, lançado em 2002. Nele, o sujeito que filma, o câmera, talvez seja a segunda pessoa mais importante da criação do filme.

Dois anos antes de Russkiy Kovcheg, em 2000, era lançado nos EUA o primeiro filme em plano-seqüência: o radical Timecode, de Mike Figgis. Neste, quatro planos-sequência são exibidos ao mesmo tempo em uma tela dividida em quatro partes, antecipando a tendência de dividir a tela que programas de TV e filmes viriam adotar – mas no caso destes, a divisão era de passagem, momentânea.

Quatorze anos depois de Russkiy Kovcheg e 68 anos depois de Rope, em 2015, um ano depois de seu lançamento, Birdman (or The Unexpected Virtue of Ignorance) (“Birdman – ou a insuspeita virtude da ignorância”), dirigido por Alejandro G. Iñárritu, integralmente em plano-seqüência, venceu o Oscar de Melhor Filme mais outros três e foi indicado para outros cinco, completando um processo transmutação da alta cultura em cultura pop.

É o mesmo processo que acontece com Filosofia, que passa pela imprensa até chegar em algo como um senso-comum, e com Música, que sai de seletas salas de concerto e passa pelo cinema até virar trilhas de publicidade e jogos eletrônicos.

Mais planos-seqüência…

… Ainda que não de filmes inteiros, na revista Moviement.


Contrate a Presto para fazer a sua partitura, transcrição, música ou livro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s