“Life happens”: temporalidades do filme Liberal Arts

O filme Liberal Arts foi escrito, dirigido e protagonizado por Josh Radnor (1974), americano de Ohio então nos seus 38 anos e famoso por ser Ted Mosby, o protagonista do seriado How I Met Your Mother (2005–2014). Lançado em 2012, Liberal Arts foi classificado como comédia romântica independente, o que, respectivamente, elucida que o filme tem momentos de sorrir, de se sensibilizar com desventuras amorosas, e não tem uma Jennifer Aniston ou um Ashton Kutcher como protagonistas. E por justiça podemos classificá-lo como tal, pois seu humor sutil trata o encantamento amoroso com o respeito que conduz o espectador ao prazer de se projetar nos personagens ou torcer por eles, e foi uma produção com menores pretenções financeiras que uma para uma A-list movie star (Radnor já era uma estrela, mas de um seriado de TV; Liberal Arts era somente seu terceiro filme como ator e o segundo como escritor e diretor). Para Josh o sucesso de filmes independentes não deveria se medir por seu êxito, digamos, comercial. Diz ele que “como um criador de filmes, estou tentando me desvencilhar da idéia de que a menos que você tenha uma brilhante, longa, enormemente lucrativa temporada de exibicação em salas de cinema, o seu filme de algum jeito falhou. Eu não acredito nisso”.

Para mim, Liberal Arts é sobre tempo. Tempos. Cada um dos personagens e dilemas refletem uma percepção da passagem do tempo e seu respectivo ônus.

Josh Radnor interpreta Jesse Fisher, 35, empregado em uma faculdade de Nova Iorque como avaliador de admissão de alunos. Jesse é apresentado de imediato como pouco satisfeito com seu trabalho em ‘bureau’ e sobretudo como um leitor entusiasmado, do tipo nefelibata que anda lendo pelas calçadas. A sua coleção de livros é mostrada: recorrentemente por pilhas espalhadas por sua casa; e em cena em que ele desperta de manhã com a luz solar vindo em sua direção e passando por entre os livros, que os protegem – uma metáfora da iluminação que as boas leituras trazem. É uma cena muito bonita, cuja beleza deve-se em importante parte a Seamus Tierney, diretor de fotografia. 

 

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O gosto por ler de Josh Radnor se confunde com o de seu personagem. Que não é autobiográfico. Diz Radnor que pôr-se em seu filme é demasiado; porém, ele também diz que “na faculdade você meio que projeta quem você gostaria de vir a ser; e eu queria ser um leitor contumaz”. Essa zona de intersecção criador-criatura é o tipo de mistura entre ficção e realidade tão ao gosto desse momento da civilização ocidental em que, de fato, é difícil distinguir das figuras públicas o que elas são em foro íntimo e o que são como símbolos expostos a coletivos. O seriado “Seinfeld” é um exemplo clássico: um humorista que se apresenta em pé em bares encena um homorista que se apresenta em pé em bares. E até mesmo anônimos podem criar personagens para si, graças às possibilidades (boas ou não) das redes sociais. Esse gosto de Josh por ler foi usado também pelos criadores e roteiristas de How I Met Your Mother: Ted Mosby, como Jesse Fisher e como Josh Radnor, era leitor ávido – o que, aliás, cria uma intersecção tripla.

Embora gostemos de pensar que estamos vendo a pessoa falar clara e totalmente através do personagem, é importante ter claro que esses tipos de personagens que podemos convercionar chamar de interseccionais são mais alteregos que biográficos. “Quando eu escrevo é muito pessoal, mas não autobiográfico”, enfatiza Radnor, que acrescenta que o que ele escreve “é mais ‘tematicamente pessoal’ – o que está acontecendo na minha vida em termos de temas em um dado momento”. É o mesmo Allan Stewart Königsberg diz de si quando indagam-no se ele é seu eu-público Woody Allen: há sim interesecções, e intensionais, mas há separações inequívocas e majoritárias. A influência de Allen sobre Josh é exaltada não só pelo flerte com a fusão pessoa-personagem, mas também, e principalmente, pelo modo como exaltam a sua musa maior: a cidade de Nova Iorque “a melhor cidade do mundo”, como dizem ambos. “Durante a faculdade e um pouco depois dela, eu passei por uma fase intensiva de Woody Allen. Eu ainda assisto aos seus filmes”. A cena em que Jesse passeia por NY ouvindo música clássica em seus fones de ouvido e narrando ao fundo o efeito dessa música sobre como ele percebe a cidade e as pessoas é francamente woody-alleniana. A reiteração do “Chapter 1” de Manhattan ampara a cena. Mais importante que concordar com a evocada influência ou com a beleza da cena é perceber que ela é o assunto do filme: a passagem do tempo: sob o manto da música clássica, mesmo na pressa e na impessoalidade da metrópole, estranhos parecem conhecidos, e o ritmo da cidade é subordinado ao da música. (“He adored New York City. He idolized it all out of proportion.”)

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Voltando à apresentação de Jesse Fisher. Ele é também apresentado ao espectador como alguém resignado pela separação de sua namorada, a qual se nega à pequena faticidade de comentar uma camisa recém-comprada por ele, não deixando dúvida de que o tempo entre eles se esgotou e esvaziou a relação: sequer empatia resta. A soma de Jesse não ser afetivamente vinculado ao seu trabalho, de não ter mais namorada e de sua família não morar ali habilita-o a prontamente aceitar o convite que recebe de seu ex-professor universitário, Peter Hoberg, um típico de departamentos de Humanas de universidades americanas atuais, descrito por amigos que foram reencontrá-lo como quem pede (como pediu mesmo) para cantarem canções de sindicato em volta de uma fogueira. Ele próprio faz piada de si, ao anunciar-se ao telefone como o comunista favorito de Jesse (o que, ato contínuo, ele desdiz – o que também é típico). Este convite, que obviamente abre o filme para a trama toda, em si fala da passagem do tempo: Hoberg, que irá se aposentar, convida Fisher para o jantar de despedida. O professor é retratado como quem fica sem objetivo de vida quando se aposenta. No discurso de despedida, ele fala de como o tempo de magistério passou rápido demais e olha para a pequena audiência absorto, reparando quão poucas pessoas resistiram como companhia. Jesse é um deles. Além do convite se prestar a abrir Fisher para tudo o mais que viria, é também uma retratação do que Josh Radnor lamenta do que ele chama de um abandono crônico (enfatizando: o abandono é ‘crônico’, é temporal): “há algo melancólico em professores, pois eles são cronicamente abandonados. Eles formam esses adoráveis relacionamentos com estudantes, mas depois os estudantes partes e os professores permanece os mesmos. É como se eles fossem cronicamente abandonados”. (A minha opinião é de que os professores são a soma dos relacionamentos que constróem e que, seja por opção, seja por alguma inelutabilidade, não mantém. Mas não é a opinião do autor do filme, que usa seu personagem para prestar esse tributo à figura dos professores.)

Chegando à universidade de Ohio, a mesma que Radnor estudou, Jesse encontrará personagens representarão uma compreensão pessoal do tempo, de sua passagem, dos pesares de sua passagem. A mais importante personagem é Elizabeth, conhecida como Zibby, adolescente de 19, universitária em seu segundo ano de faculdade, interpretada pela atriz com quem compartilha o primeiro nome, Elizabeth Olsen (1989), então nos seus 23, quem co-protagoniza o filme. Zibby representa o jovem artista despregado de preocupações quotidianas, um ‘flaneur’ dos tempos de Facebook que alguns chamariam de espírito livre. Enfim, alguém para quem o tempo não passa com os mesmos pesares do tempo de seus pais, amigos do professor Hoberg. A presença dos pais de Zibby e dela própria assinala o tempo de carreira do professor, que orientou a mãe e ainda lecionava quando a filha rumava para meados de sua graduação. Acho interessante também observar que isso tudo acontece na instituição dedicada, ao mesmo tempo, à guarda do saber de outra época e ao seu avanço.

As centelhas da atração mútua entre Jesse e Zibby são enfatizadas, como sói acontecer no tipo de filme que há quem jocosamente chame de ‘chick flick’, desde o primeiro momento em que se vêem e conversam. Compartilham o gosto pela leitura. O primeiro arco formal termina com Zibby indagando Jesse se ele gosta de música clássica, algo que ela aprendeu a gostar em uma disciplina que fizera na faculdade. E aqui reside o que mais me chamou a minha atenção no filme: enquanto os personagens padecem da ação do tempo, há o alento supratemporal. Tal como a alta literatura discutida no filme, a música clássica e as partituras resistem ao tempo, mesmo não sendo indiferente ou inerte a ele, tal qual aponta Robert Bringhurst da tipografia. É esta música que modificará a percepção de Jesse de pessoas e lugares. A primeira cena de conversa íntima entre eles acontece, não por acaso, dentro de um símbolo de atemporalidade, uma igreja. Nela, Zibby reclama da fugacidade das relações com os rapazes da faculdade. É novamente a oposição efêmero-permanente.

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A diferença de idade, de tempo de vida, de Jesse e Zibby é deflagrada principalmente em dois momentos: o que mais me interessou foi quando discutem um livro de vampiros. Livros (e filmes) de vampiros eram a moda entre adolescentes da época, notoriamente entre moças. Fisher e Radnor consentem, como diz o autor, que “não é todo mundo que começa lendo alta literatura. Se você lê o suficiente para ser arrastado para outras coisas, então, talvez, esses livros de vampiros sejam ‘livros-portões de entrada’”. “Tudo o que quero é explorar por que se lê livros, qual é o propósito da leitura e talvez que não seja tão legal assim odiar algo somente por este ser popular”. Em Liberal Arts a discussão se dá pela oposição de alta literatura (permanente) com literatura ‘pop’ (efêmera, ou, como dizem italianos, ligeira).

Todavia, o que destaco disso é que justo na adolescência, quando jovens se sentem flutuando no tempo, a moda eram livros que tratam de seres potencialmente imortais, seres de amores que atravessam séculos. É mais um caso em que o filme sobrepõe percepções temporais. Característico também da suspensão temporal é que a comunicação dos enamorados, por muito tempo, é somente por cartas autógrafas; ou seja, é em tempo diferido.

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A nostalgia dos tempos de faculdade, que permeia o roteiro, é outra forma de sobreposição de temporalidades. O verniz do tempo, como se diz popularmente. Agruras viram regozijos. É como se fôssemos crônica e tendencialmente imunes à tristeza. Aqui há clara diferença entre criatura e criador. Josh diz “eu chutei a nostalgia dos tempos de faculdade quando eu estava no fim dos meus vinte anos. Por mais que eu tenha adorado esses tempos e valorize essas memórias, eu não quero mais voltar para eles”. Ao contrário de Jesse, que volta à universidade de Ohio, cujo logotipo ele ainda ostenta em um agasalho ancião e surrado.

Lá ele respira com um entusiasmo como se este ar fosse o mais eficiente rejuvenecedor. Na faculdade Fisher reencontra um estudante que o faz lembrar de si (percepções de tempo se colidindo) e seu professor predileto. Professora, para ser exato. Uma mulher que ele lembra colossal e cuja admiração retrospectiva teria de se dar pela forma que imaginamos: uma ação presente redimindo um (imaginado) desejo do passado incipiente. Mesmo personagens secundários, como o ‘hippie’ Nat, interpretado por Zac Efron, trazem o tempo como assunto: Nat, de maneira caricatural, é alheio a tudo o mais que o rodeia e que não seja interesse próprio. “A Fortuna nunca sorri para aqueles que dizem ‘não’”, diz Nat a Jesse, incitando-o a se entregar ao pequeno porvir universitário de procurar por uma festa cujos sons e músicas modificam a paisagem bucólica do ‘campus’. Como a música clássica modifica a cidade.

A música, uma arte do tempo, figura central do filme, é inclusive citada por Radnor quando ele explica por que prefere dirigir a atuar: “estou um pouco menos faminto como ator do que eu costumava estar. Quando se é o diretor, é-se como o regente de orquestra, e quando se é ator, é-se como um violinista. Há com o que se empolgar em cada caso, mas é como regente que você consegue o todo”.

Esta explicação traz outro aspecto que fortalece a percepção da película como uma investigação de temporalidades, pois é o regente quem decide quase tudo temporal da interpretação da partitura; é ele quem controla quantas batidas por minuto terá um indeterminado andamento, é ele quem controla as flutuações temporais, enfim, a orquestra respira como o regente. Importante notar que o gosto pela música de Josh Radnor, também cancionista, é mais um aspecto que o vincula ao clarinetista Königsberg, o popular Woody Allen. Ambos criados no judaismo, religião e cultura indissociáveis de sua prática musical.

Segundo Josh, “um filme pode e deve ter alguma dissonância real – raiva, dor de cabeça, lágrimas, conflito, catarse e todos os elementos que Aristóteles demanda de uma boa história”, isso Liberal Arts tem. Mas Jesse talvez não concorde que “a tensão tem que ser resolvida”.

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