Cinema sorvete com Nutella

Todo mundo assume para si pelo menos uma tentativa de retidão. Aquela promessa de fazer o certo dar certo. Ao mesmo tempo, é normal relaxar essa tentativa em algum momento.

Claro, não é nada de efeito tão ruim considerado no longo prazo, é só uma especialidade ou necessidade especial assumida sendo suspensa temporariamente. É uma mistura de prazer e culpa: o estilista que se veste como se nada soubesse de se vestir, o douto gracejando com baixo calão, o chefe de cozinha comendo cachorro-quente que parece mesmo feito de cachorro, o rico ostentando usar um produto desmedidamente abaixo das suas possibilidades e hábitos de consumo, o atleta profissional se esbaldando de comer feijoada enquanto bebe cerveja como se não houvesse amanhã, o estudante estudar como se também o exame fosse ser protelado, o dentista fazendo bolas de Babaloo enquanto avalia a sua arcada…

É aquele “só hoje, tudo bem”.

Convencionemos chamar isso de pecadilho. Ou chamemos, para deixar em termos científicos, de: comédia romântica para um dia de descanso chuvoso em que, no lapso de um piscar de olhos, olvida-se o amor-próprio, a preguiça vence a razão, o livro sério salta das suas mãos, a tela se liga sozinha e nela está o personagem do carismático & terrível ator Ashton Kutcher paquerando o de uma das melhores atrizes de sua geração, Natalie Portman, em uma de suas mais esquecíveis atuações. Afinal, só hoje, tudo bem.


Tensão e relaxamento; mais relaxamento que tensão

Regime e bom senso ignorados, desde o minuto 1 de No Strings Attached (no Brasil, Sexo Sem Compromisso) os protagonistas, antagonistas e secundários estão envoltos em uma trama que, de tão previsível que parece, gera a expectativa de quebra da previsibilidade. Que não vem.

Provação leva à redenção – este é um padrão moral comum a parábolas religiosas (a parábola da ovelha perdida), contos de fadas (a corrida entre a lebre e a tartaruga), provérbios (“depois da tempestade, vem a bonança”), lições de vida e tradições. No caso das comédias românticas, provação e redenção acontecem geralmente assim:

 

Apresentação

  • A deseja B; B não deseja A

 

Desenvolvimento 1

  • B cede a A
  • B rompe com A

 

Inversão da Apresentação

  • B deseja A; A não deseja B

 

Desenvolvimento 2

  • A cede a B
  • A rompe com B

 

Conclusão

  • A e B se reconciliam

 


Criadores de comédias românticas lidam com essa forma, a qual é repertório dos espectadores do estilo. É o mesmo caso de compositores de música clássica como Mozart, Beethoven e Schoenberg, que esperavam uma tal familiaridade com a forma musical que se estaria sendo escutada, que seus ouvintes teriam um “enredo” para acompanhar mais ou menos como em uma narrativa verbal. Se o filme começa pela conclusão “foram felizes para sempre”, o interesse estará em “por que (ou como) foram felizes para sempre?” ao invés de na dúvida “serão felizes para sempre?”. A constante é: você vai supondo desenlaces, seja por expectativas prévias ao filme, seja por construídas por ele. Atidos às comédias românticas, podemos dizer que o enredo tem que trazer dúvidas (tensão) e respostas (relaxamento); e, evidente, por ter o estilo em questão, o filme tem que ir encantando e divertindo.

no-strings-attachedNo Strings Attached, na minha opinião de espectador, falha nesse ponto: segue demais a fórmula e não entretém pelo caminho. Ou seja, falha tanto no âmbito global como no particular. No mínimo, se o espectador não tem dúvida do que afinal acontece, tem que ser entretido por como se desenlaça. Mas, do mesmo jeito que quando em regime a pessoa se vê lambuzada de sorvete com Nutella e pondera que aquilo tinha que parar mas não pára, eu não parei.

Segui com o filme, talvez enfeitiçado pelos protagonistas, espécimes de descomunal beleza, talvez por estar engajado na auto-degradante missão de encurtar o sábado e fazer com que o domingo chegasse logo e assim eu pudesse fingir lamentar que já era domingo e não sábado, talvez… Segui diante daquele sábio de pracinha que diz “2 mais 2 são 4; mas não sempre, sabia?”, e quando você replica pedindo uma explicação supondo algum baile sobre trinômios ou sobre a teoria das quatro cores, o sabichão pede a resposta a você, porque ele não a tem. O filme faz isso: faz perguntas e respostas óbvias e empurra para espectador ter que completá-lo com algum sentido profundo. Que não vem.

No fim, prometendo não reincidir no pecadilho e já estendo os braços rumo à pilha de livros para retomar o que saltara das minhas mãos (a citada tentativa auto-imposta de retidão), de novo a tela se liga sozinha e nela está o personagem do carismático & terrível ator Justin Timberlake paquerando o de uma das melhores atrizes de sua geração, Mila Kunis, em uma de suas mais esquecíveis atuações. Era hora de assistir a Friends With Benefits. Afinal, só hoje, tudo bem.




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