Selva de palmas – sobre o seriado Mozart in The Jungle

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Enquanto incontáveis homens pagam e se esfacelam para jogar futebol e sonham com a vida que teriam tido se tivessem sido os futebolistas que seus devaneios pueris prometiam, alguém como Zinedine Zidane, atleta de enorme magnitude e que gozava de um dos maiores salários do planeta independente da profissão, contava os dias para se retirar do ludopédio – considerando a média – precocemente. Como alguém pode facultar prescindir disso tudo de bom? É difícil crer que não fosse isso tudo de bom que aparenta. Mas mesmo a desistência de um Zidane não muda o que se fantasia a respeito do posto de estrela do desporto bretão. Algo de duro tinha.

Como a de footballer, a profissão de músico desperta em quem não o é uma gama vasta de boa imaginação: o músico seria um flâneur, um enamorado das musas, um vida-boa, alguém que logra a proeza de fazer dinheiro enquanto se diverte com aquilo pelo qual milhões pagam para se divertir. Ainda que por músico se entenda do anônimo da churrascaria ao superstar que move bilhões, destina-se à alcunha o mérito de desfrutar de uma certa liberdade. Isso é mais restrito a um músico, digamos, do pop. Ao músico “clássico”, ao músico da música clássica, de concerto, são reservadas hipóteses um pouco diferentes; ou, menos ainda: como se consome muito mais música pop que erudita, muitas vezes pessoas sequer têm uma hipótese do que é a profissão do músico da clássica. Profissões em geral, por entusiasmante que sejam, têm recorrências, rotinas; um dia, o profissional se depara seguindo absorto algum automatismo que antes condenara ou não achando assim tão especial aquilo que lhe deslumbrava. Ser músico também é isso.

Considerando esses aspectos mais a constante relativização das Humanidades e da Beleza na contemporaneidade, surpreende que um seriado de “TV” trate desse microcosmo complexo, acusado ser “de elite” e difícil de ser condensado para quem não o vive, que é a vida de quem realiza concertos. Por essas razões e outras mais – creio não me arriscar muito por dizer – hail Mozart in the Jungle.

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É conhecida a quizila de profissionais em relação às ficções cinematográficas e principalmente televisivas de suas profissões. Acham essas ficções exageradas, incompletas, até falaciosas acham-nas. Médicos não se vêem propriamente representados pelos seriados médicos que abundam nos canais de televisão e na internet, nem quando há um médico real de suporte. Semelhante relação de insatisfação há entre praticantes de outras profissões e seriados cujo assunto são seus respectivos labores, como investigadores forenses, detetives, policiais etc. Foi esta expectativa de quizila que decidi lidar com a série Mozart in the jungle, produção da Amazon lançada em 2014 que conta de um maestro jovem e já estrelar (provavelmente inspirado no venezuelano Gustavo Dudamel) os instrumentistas e staff de sua orquestra fictícia (a Sinfônica de Nova Iorque), os aspirantes a integrá-la etc. De antemão contava com simplificações, deslizes e apelos, afinal, o ambiente da música clássica é complexo (pelo menos assim nós músicos gostamos de pensá-la) e música não lida com sensações que dispensam explicação, como as em torno de medos e do medo da morte – não é por acaso que House, um seriado médico inspirado no personagem Sherlock Holmes, o mais famoso dos detetives que investiga homicídios, seja um dos maiores sucessos da história da TV, tanto de público como de crítica. Outro sucesso que cruza medicina e investigação policial é Medical Detectives.

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De fato experimentei o incômodo de ver exageros, incompletudes, falácias das quais amigos das ciências médicas reclamavam em House, E. R., Grey’s Anatomy, Scrubs etc. São caricaturas: o maestro não age como um maestro real, seu mexer de braços constrange, suas falas são ébrias ; os jovens que aspiram a ingressar na Sinfônica vivem um luxo e hedonismo de Melrose Place que jovem músico clássico não pode ser permitir nem quando tem os meios financeiros para tal; os produtores da orquestra vivem em constante sabotagens que inviabilizariam a existência de um grupo vultuoso. Enfim, não é um retrato fiel do microcosmo de quem realiza concertos. Não obstante, é mister reconhecer que o seriado também acerta e kind of get classical music, tem levado música para lugares improváveis e tem sido bastante premiado. Entre prós e contras, acertos e erros, o saldo é positivo, como nos fazem crer os fatos de que a série está na terceira temporada e o grande aumento de venda de discos e faixas de Mozart coincidindo com o aumento de audiência e repercussão da série. O CD em comemoração ao 225º aniversário de Mozart foi o mais vendido de 2016, superando até os famosos e alardeados Drake e Beyoncé.

Desfrutemos que a música clássica esteja avançando também nessa direção. Ante isso, imprecisões técnicas são o de menos. Médicos decerto se beneficiaram da aura de realizador de milagres do doutor House. Quem suporia palhetas de oboé seriam mainstream? Ganharemos todos, como sociedade inclusive, com pessoas de vez em quando trocando o streaming pelo listening.

Como para as demais ficções de profissões, a Mozart in the Jungle basta-lhe a galhardia do verossímil: de real, basta o real – e música clássica é transcendente.


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Um comentário sobre “Selva de palmas – sobre o seriado Mozart in The Jungle

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