Oasis e a fusão de Música, Moda, Pelada e Perrengue

Missing you, nineties.


A indústria da moda não se transformou toda graças à Oasis; sozinha, nenhuma banda faria isso. Porém, assim dito, esta não é uma história boa de ser contada. Menos ainda é uma história boa de ser contada por alguém que, como eu, foi jovem no auge da banda e, portanto, filtrará os fatos com alguma nostalgia. Conto, pois, a seguir, como a banda Oasis transformou – sozinha – a indústria da moda.

E da música. E do esporte. E do Cosmos.

Como uma história mítica típica, o meu relato começa com um elemento de acaso. Mas, basta de pré-intro, que o pop atual não tem tempo para essas frescuras de arranjo.


Ocaradanet havia acabado de instalar a TV a cabo. Bilhões de possibilidades se abririam, pensei. E acertei.

Ainda disparando ações com os dois controles remotos como um Rasputin que aconselhasse ao mesmo tempo o Czar e o líder bolchevique, fui direto ao canal que um adolescente de banda iria. A introdução ao piano ainda soava no vídeo-clipe de “Don’t look back in anger”. Aquela seqüência safada de acordes me conquistara, devo admitir, para a minha própria vergonha e a de meus professores de harmonia (mais para a minha mesmo – still: sorry, mestres). Um momento de conjunção de cinco coisas que ainda eram relevantes – eletrônicos da Mitsubishi, TV, TV a cabo, a MTV e vídeo-clipes – e que ainda lembro com o entusiasmo de quem encontrava uns Beatles tardios, entusiasmo pouco justificado para quem não conhecia os Beatles da época dos Beatles.

Foi uma visão fatal de duas coisas que eu não sabia que existiam ainda: um roqueiro inglês e uma jaqueta esportiva que parecia – mas só parecia – ser da seleção alemã de futebol da Copa de 90 (a primeira Copa que vi) sob a qual repousava uma calça jeans de saldão da C&A (mas da C&A do crediário-raiz, a de antes do rebranding da rede). Nada me fazia muito sentido, mas a VJ (ou, para quem nasceu dessa Copa em diante, a video-jockey) logo explicaria num paulistanês convincente que os meninos da Oasis estavam bombando. Bom-bán-do. Hoje ela teria dito trending, mas eu entendi o que subjazia a tudo aquilo em termos parabólicos. Se eu já me vestia como um rockstar, só me faltava a parte mais fácil – e que você já advinha qual –: “só me faltava ser um rockstar”, pensei.

E não acertei.


A Inglaterra de meados dos anos noventa descobriu que Inglaterra era uma marca valiosa para o entretenimento. Mas não foi só a guitarra do Noel G. e o vestido da Gerri H. que ostentaram um britanismo ou a Union Jack, a bandeira do Reino Unido (que é corretamente percebida como a bandeira da Inglaterra, o país que uniu e concentrou o reino). Não precisaria, mas teve mais.

A Premier League engatinhava, mas já dava mostras de que poderia competir pela atenção internacional então entregue mormente para os campeonatos italiano e espanhol, e já tinha um craque-galã inglês para chamar de seu. A Eurocopa de 1996, sediada na Inglaterra, encheu o país de bandeiras inglesas e britânicas (fenômeno que os alemães repetiram na Copa da Alemanha de 2006, saindo em massa às ruas com símbolos nacionais pela primeira vez desde a guerra que, além de desgraças maiores, acabou adiando as Copas de 1942 e 1946). Na política, efervescia um nacionalismo na figura de Tony Blair e sua guitarra (os jovens de então, como os de todas as épocas, não entendiam as implicações do Labour e muito menos de uma guitarra mal tocada). Na música, bandas voltaram a conquistar o público patrício, saindo da sombra das grandes dos anos oitenta, como The Smiths, embora ainda influenciadas por essas.

Nos e dos EUA soava o rock mais escuro do Nirvana, Pearl Jam e genéricos destes, e camisas de flanela do estilo lenhador usadas por jovens de lareira a gás fizeram o contraponto midiático para o estilo moleque de perifa de cidade inglesa lançada ao próprio azar pós fim do parque industrial nacional. Bons hits musicais e um branding inglesão bastaram para que roqueiros parassem de birra com o termo pop e, reunidos pelo pretenso didático mas impreciso termo Britpop, colhessem os louros – e ruivos – do momento, a despeito de se xingarem pela imprensa como encrenqueiros na entrada de um estádio de futebol (o jeito correto de encrencar em vão). Afinal, if you wanna be my lover, you gotta get with my friend.

Era o apogeu da MTV e dos CDs, o que significava que uma segunda (ou, a depender da contagem, terceira) Invasão Inglesa poderia acontecer, e desta vez seria global.


Vamos encarar alguns fatos: as Spice Girls foram um projeto de marketing destinado a encontrar uma noiva para o Beckham; a banda Blur só é lembrada pelo woohoo do game FIFA; as outras bandas começaram pelas bandas, das bandas não saíram e como bandas relevantes não existiram. Corolário: o Britpop pode ser resumido à Oasis. E, convenhamos, o Oasis (ainda não decidi se os chamo de ‘a’ – banda – ou ‘o’ – grupo) era o Noel; donde, o corolário do corolário: o Britpop pode ser resumido ao Noel-rock.

Mas, isso em termos musicais, porque em termos visuais é o irmão famoso do baixinho genial e vaniloqüente (e genial também porque vaniloqüente) quem resume a época, cujo papai, Noel, reconheceu desde o princípio que o caçula – mais alto, mais bonito e mais frondoso – era mais apto a ser a cabeça inclinada e a voz da banda. Liam – The Swagger, Forever Swearing Lad – Gallagher, “um homem com um garfo em um mundo de sopa”.

A música e a moda viriam dessa mistura de canções mnemônicas acompanhadas por guitarra-base acompanhada de guitarra-base (ambas muito distorcidas) e cantadas por uma voz que se mexia (na verdade, não se mexia) entre o caricato e o característico – e vestidas de roupas ordinárias de cidade inglesa fria e peças de futebol sobrecasacadas. Se um teutão-brasileiro questionou se o rock and roll seria “os óculos do John ou o olhar do Paul”, podemos (plural colocado para que você esteja ao meu lado na frase ruim que virá a seguir – stand by me) dizer que o Britpop pode ser definido como a voz do Noel no canto do Liam. Ou, assumindo de vez o poetar cachorro: o corpinho do Noel na parka do Liam.

A maldita parka.


Boa parte do que se considera o estilo dos irmãos são coisas que eles particularmente não escolheram começar a ter. O jeito proletário do Norte de se vestir, com calças e camisetas, camisas e jaquetas surradas e sempre maiores que o tamanho da pessoa que as usa – pois herdados ou comprados para durar mais anos do que os tecidos normalmente aguentariam; o sujeito gostar de futebol mais que o futebol jamais gostou do sujeito; juntar – e, até, roubar – moedas para comprar uma camiseta do time; tocar guitarra sentado; falar palavra como se não houvesse uma porra de um amanhã. Em suma, o pacote completo do filho de irlandês brigão, emigrado e desenraizado. (Em tempos em que o aquecimento global causa flocos de neve, convém lembrar que menção à nacionalidade irlandesa é sempre reiterada pelos próprios bros G; o Noel, por exemplo, em termos de seleção, torce é para a irlandesa; e a Epiphone Sheraton tinha a bandeira do Reino Unido, não da Inglaterra. Mais: ao pai e à mãe ele credita sua shit-talk-zência).

O que eles escolheram, isso sim, foi manter essas coisas (menos roubar – espera-se) que poderiam ter deixado para trás conforme foram enriquecendo. Até os exageros eram motivos de auto-piada: “Eu ganhei um Rolls-Royce e o Liam ganhou um Rolex, o que é genial, porque eu não sei dirigir e o Liam não sabe falar as horas”. Um considerável avanço para o adolescente que ficou seis meses sem poder sair de casa, uma condenação policial por ter sido pego roubando. Alguns dizem que ele avançou muito na guitarra durante esse tempo. Outros dizem que ele compôs canções que viriam a ser famosas, nesse tempo. Haverá, ainda, quem diga que nesse mesmo tempo ele musicou trechos do Vigiar & Punir.

Cousas que explicam parte do apelo: a peculiaridade genuína.

É essa peculiaridade que bandas mais privilegiadas® ou menos convictas não lograram, seja contemporâneas, seja posteriores. “Essa nova geração de estrelas do rock tem ótima aparência: Alex Turner, Miles Kane, os caras da Royal Blood. Eles têm jeans coladinhos skinny e botas e tudo quanto é delineador de olhos. Eu tenho um gato que é mais rock’n’roll do que todos eles juntos…

… Pombos? Arranquem essas malditas cabeças deles.” Creio que ele foi literal. Em parte desta afirmação.


Quem não viveu a pré-história dos anos MM e hoje vê a revista GQ (para a qual o Q mais ou menos ainda serve para Quarterly, e o G) vestindo modelos misturando peças formais, casuais e esportivas – algo que os irmãos Gallagher já faziam publicamente desde pelo menos 1994 – talvez não tenha idéias da penúria mor daqueles dias nokiazudos.

Roupa de sair. Roupa de ir à igreja. Roupa de trabalhar. Roupa de fazer esporte. Roupa de ficar em casa. Roupa de arrumar as gavetas das roupas. Não tinha essa de menino ir para a escola com short de futebol no dia de Educação Física (código secreto para “futebol”). Calça leg não era de trabalhar (exceto se em Educação Física). Jaqueta esportiva não chegava perto de camisa social, nem nas gavetas. Era um mundo em que cada contexto de vestir ficava em seu quadrado. Não havia essa miríade caleidoscópico-orgiástica de contextos, a manifestação têxtil do pós-pós-modernismo que Paolo Portoghesi aprovaria. (Ou não aprovaria? Não sei… Especulei.)

Especialmente a utilização de peças de esporte se tornaria comum, criando o maior mercado de roupas da atualidade: as roupas maomeno esportivas. Ou, como chama a GQ: athleisure.

Se você pensar que um tênis de tênis foi feito para suportar – e com elegância! – um atleta roçando para lá e para cá por três, cinco danadas horas, fica clarividente por que um deles pode servir bem para o batidão quotidiano. E, isso somado à onda retrô que, desde a segunda década do segundo milênio, o popular de 2010 pra cá, encharca as redes sociais e os mercados hipsters, entende-se por que o Adidas Stan Smith – um modelo dos anos 70 e relançado em 2014 – foi o tênis que desatou um mundo de imitações mais caras e mais baratas e que levaria ao Adidas Superstar ser o mais vendido do mundo em 2016. Outro fator importante é a necessidade humana por alguma raiz, passado, vínculo, mesmo que imaginados. É o que alguém chamou de fauxtalgie, uma cruza sagaz de “falso” com “nostalgia”. Em português: falsalgia (?). (Em francês soa melhor, pelo menos para mim; lembra a viagem que não fiz à Paris pré-Houellebecq.) Esses itens de um passado vivido ou imaginado, algo manifestado também nos filtros digitais que dão aspecto envelhecido a fotos, trazem o verniz do tempo – expressão garibada pelo verniz do tempo.

A fusão de esporte com moda quotidiana foi especialmente proveitosa para os homens, que passaram a ter até um termo chique para justificar (para si, e só para si – a sua namorada continua detestando) a ida ao cinema com a camiseta do timão. Como que num piscar de olhos (do David), toda grife famosa tinha um esportista como modelo. Esse fenômeno europeu e latino ligado ao futebol já acontecia nos EUA com o basquete, seus tênis Jordan e a fantasia típica, adotada pela molecada do Bronx ao Pontal. O Bola de Ouro era vaidoso. O roqueiro era boleiro. O rapper era designer.

Só podia dar, como deu, na explosão da: #mensfashion.


Eram tempos em que as pessoas saíam às ruas e não assistíamos a filmes como Kung Flu Panda e sneakerhead e hypebeast soariam nome de personagem de um revival futurista (?) do “Street Fighter”; e o Oasis lançava seu sétimo álbum de inéditas, um em que o Noel admitiu como jamais a entrada de composições de gente da banda e a intromissão de pessoas outras na produção musical. Se até o Marquês de Sade criava solo, essa libertinagem criativa só poderia prenunciar algo que me envergonho até de escrever: a era das colaborações.

Collabs, para os íntimos, marketeiros e influencers com mais e menos que 10k de followers. Duplas, triplas ou (não espero) quádruplas, trouxeram fôlego financeiro para as então nano-marcar e estético para os grandes varejistas. Colaborações de músicos e marcas também vieram desse período. Não exatamente, se lembrarmos o vestido espartilho de Jean Paul Gaultier usado pela Madonna em sua turnê Blonde Ambition de 1990 e as colaborações de Grace Jones com o diretor de arte Jean-Paul Goude, que na década de 1980 transformaram o corpo de Grace Jones em um objeto de moda e criaram videoclipes modernosos. Ou, em dois-mil-e-vinte-zês, Gaultier x Madonna, Jones x Goude, respectivamente. O auge desse processo viria com o futuro presidente dos EUA e sua marca Yeezy em parceria, ou melhor, em collab com a Adidas – não por acaso, a mesma Adidas que esteve nos pés do Britpop e, antes, dos rappers do Run-DMC e, antes ainda, do Bob Marley.

Mas, voltemos.

Liam, sempre safo com moda e modelos, queria uma marca para chamar de sua. A grama do vizinho é sempre pretty green, afinal, e com o Oasis, cujo líder à essa época parava de fumar até grama (mas o irmão galã, não), também foi assim.

E foi a ruína da banda.

Num fim mítico, em 2009, acabariam por um motivo que a Oasis criou e transformou – sozinha. O legado, porém, assim como os irmãos separadamente, seguiria solo.


Se eu pensasse que havia algo a alcançar, não teria deixado a Oasis. Tomei uma decisão muito rápida no carro naquela noite em Paris: já fizemos tudo, só vamos dar voltas agora e fazer turnês maiores, ganhar mais dinheiro e conseguir outro baterista – tivemos onze bateristas a esse ponto. Nós lotamos todos os grandes shows do mundo: Hollywood Bowl, Madison Square Garden, Wembley, estádio City of Manchester, Hampden Park. Diz um nome: nós lotamos.

Naquele estágio, eu estava voando separadamente para o resto da banda, o que tenho que lhe dizer, foi ótimo pra caralho. E Liam estava demitindo gerentes de turnê porque ele não gostava dos sapatos deles. Em seguida, ele cria sua própria marca de roupas e passou a dedicar músicas a ela no palco, e eu fiquei, tipo: “É mesmo isso que aconteceu?” Ele está no palco modelando parkas que você pode comprar no site dele. E eu fiquei: “isso não é para mim”.

A maldita parka.


Bonus track

Se você pensar em se casar de terno e tênis (“sapatênis” é uma aberração que um dia esqueceremos), agradeça à generosidade da sua noiva primeiro e, em segundo, a esses iconoclastas das vestes. (Just don’t do it.)



Referências

Leituras

Algumas coisas que li para escrever o texto acima – o que você leu, não leu, vai ler ou não vai ler –, na ordem que li (não que isso seja importante):

  1. Mod Culture
  2. Parka
  3. How Supreme, Palace and Patta have been influenced by 95 years of Umbro football kits
  4. Why did the nigerian football kit become such an immediate cultural touchstone?
  5. “Is This What A Real Man Looks Like?”: How Fight Club Formed Men’s Style
  6. Lessons From Football’s Most Stylish Managers
  7. Ten sportsmen who owned it on and off the field
  8. What Britpop Did For Men’s Style
  9. The 9 Most Iconic Trainers Of All Time
  10. Five Best Dressed Sportsmen In The World
  11. How David Beckham’s ‘brand’ was made
  12. The Epic History of Military Style
  13. Esqueça o hipster: o fitster surge como a nova tendência do momento
  14. The Rise And Rise of the Spornosexual
  15. David Beckham’s Hair: An Oral History
  16. Beethoven: The First Rock Star
  17. Noel Gallagher Is Esquire’s December Cover Star
  18. Football Casuals: How To Wear Terrace Fashion
  19. Just How Much Is Sports Fandom Like Religion?
  20. Sports: America’s new religion
  21. Have Sports Become a Religion?l Culture of Sports l Religion and Sports
  22. How the coronavirus could change America’s religion of sports
  23. Sport, Spirituality, and Religion: New Intersections
  24. Britpop
  25. Oasis (band)
  26. Noel Gallagher
  27. Noel Gallagher’s High Flying Birds
  28. Liam Gallagher
  29. Beady Eye
  30. Cool Britannia
  31. British Invasion
  32. Swinging Sixties
  33. Post-Britpop
  34. Athleisure
  35. Sportswear (fashion)
  36. About Pretty Green
  37. Stan Smith: The history of the decade’s best-selling sneakers
  38. More Than Just a Man A History of the adidas Stan Smith
  39. The top 10 best-selling sneakers in 2016: Adidas beats Nike
  40. Adidas strategy shifts from Stan Smith and Superstar to Yeezy

Documentários

Filmes

(Não tem música do Oasis no Trainspotting porque o Noel, quando contatado para negociar o uso de música no filme achou que o filme fosse sobre… trens, e nem quis ouvir a proposta.)

Redes da Oasis

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